segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Moreira e os sapatos novos




Quem de nós não se lembra da sapataria onde costumávamos ir sempre que o velho par de sapatos deixava de ser um confortável amigo, para ser motivo de vergonha, pelas marcas do uso?

Ainda que uma sapataria não cative a fidelidade do cliente como uma barbearia, por exemplo, a do bairro sempre nos arrasta pela comodidade.

Normalmente, o vendedor daquelas antigas sapatarias masculinas era um sujeito atencioso, que não se incomodava de trazer caixas e mais caixas, procurando cercar o cliente de todas as opções disponíveis.
Ajudava a calçar e aguardava calado a decisão do
comprador.

Seu Moreira, um senhor dos seus 60 anos, representante de laboratório farmacêutico, morador do bairro e cliente antigo de uma dessas sapatarias, não dispensava a ajuda do vendedor, pois tinha certa dificuldade para se calçar, devido muito mais à barriga do que à idade.

Com a humildade de sempre, o vendedor se agachava e, com ajuda de uma calçadeira, empurrava aquele pé gordo para dentro do sapato escolhido. Puxava o cadarço e dava o nó, enquanto o Seu Moreira fazia cara de quem chupava um limão azedo.
Ele, no entanto, jamais reclamava; pelo contrário, fazia questão de levar sapatos menores que seu número.
Sabe-se lá o porquê, comprava sempre o mesmo modelo.
O vendedor, ainda que muito intrigado, não se julgava no direito de questionar a decisão do cliente.

O que fazia Seu Moreira comprar um sapato menor?
Sua profissão o obrigava a fazer longas caminhadas, a visitar inúmeros consultórios médicos, levando aquela pasta pesada, cheia de amostras.

Devia ser um insuportável desconforto cada vez que seus pés tocavam as ruas e calçadas abrasadoras dos dias quentes do Rio de Janeiro.
Como era possível alguém se infligir tão severa punição?

Um belo sábado, à tarde, Seu Moreira apareceu muito bem disposto na sapataria.
Nem parecia que tinha perdido a esposa havia poucos dias. Pela primeira vez, estava de fato alegre.

Escolheu um novo modelo de sapatos, muito mais bonito e bem mais caro que o usual e, quando o vendedor lhe trouxe o número de sempre, Seu Moreira sorriu e disse:
— Não, meu bom amigo; não uso mais este número.
Traga um maior, por favor.
O sapato lhe coube como uma luva.
Seu Moreira dava passos felizes e sorria.

Antes de sair da loja, revelou ao vendedor seu segredo:
— Amigo, sei que muitas vezes o intriguei quando comprava sapatos de número menor que o meu, e me obrigava a andar com aquelas dores nos pés.

É que sendo muito mal casado, tinha uma esposa que me infernizava a vida.
Quando, no trabalho, lembrava-me de que ao anoitecer teria de voltar para casa e suportá-la, consolava-me com o fato de que pelo menos em casa poderia tirar os sapatos, que tanto me atormentavam.
Agora, depois de muito sofrer, vejo-me livre de dois tormentos, e, por isso, sinto-me tão feliz!
Fiquei viúvo e, portanto, não preciso mais dos sapatos pequenos.

Como é preciosa a mulher discreta, cujas palavras são sábias, mas quão terrível é aquela que transforma a vida do marido em um verdadeiro infortúnio.

Amigo leitor, leio a Bíblia já por mais de 30 anos e o único versículo que encontrei repetido, exatamente da mesma maneira, em capítulos diferentes, fala sobre o assunto que estamos a tratar.
Peço a você, meu caro amigo, que reflita comigo.

Provérbios 21:9 e 25:24 dizem exatamente a mesma coisa:
 
"Melhor é morar no canto do eirado que junto com a mulher rixosa na mesma casa.”


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