sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A viagem da Humildade

 

Conta-se que a Humildade resolveu fazer uma viagem, para abençoar o povo que vivia em uma terra distante e muito pobre.

Não havia entre aquela gente ninguém abençoado; o povo vivia na mais completa miséria, sem rei e sem rainha.
O caminho para aquela cidade era bastante longo e árduo, cheio de pedras e, ainda por cima, havia um rio muito caudaloso para atravessar. Por isso, a Humildade procurou um barco para transportá-la.

O primeiro barco que encontrou era bonito e grande. Não ficava a dever aos mais famosos iates dos quais se tem notícia, e que navegam, como se costuma dizer, “pelos sete mares”. Tinha imensas velas, suas ferragens eram cobertas de ouro e a madeira do seu casco era a mais nobre que havia.
Assim que a Humildade lhe pediu ajuda, o barco se dispôs a colaborar, porém o pagamento que exigiu foi altíssimo: queria que a Humildade lhe desse glória e admiração, por sua beleza e força.
Ela não tinha como pagar o preço desejado por aquele barco e, assim, outro passageiro o alugou e partiu com ele em viagem.

A Humildade então achou outra embarcação. Era também muito bela, pronta para cruzar aquelas águas, pois tinha um motor de grande potência. Queria, porém, um pagamento em ouro e prata, cujo valor era incontável.
Enquanto a Humildade se espantava com o preço, outro passageiro apressado lançou sobre o seu convés um baú cheio de ouro, e lá se foram a navegar pelas águas.

O terceiro barco que a Humildade encontrou não era lá tão formoso quanto o primeiro, nem tinha a força do segundo. Entretanto, quando soube da importância de sua missão, transformar a vida dos miseráveis, o barquinho começou a se mover e, todo alegre, levou-a para a outra margem do rio, vencendo a distância e a força da correnteza.

Do outro lado, o povo esperava a chegada da Humildade para abençoá-lo.
Quando os barcos chegaram, a maioria correu para o primeiro, atraída por sua beleza.
O passageiro que encontraram lá, no entanto, era o Orgulho, e quem o recebeu acabou amaldiçoado.

Outro grande grupo correu para o segundo barco, atraído pelo barulho daquele motor forte e pelo ouro que reluzia no seu convés.
O passageiro que estava lá, triste desilusão, era o Amor ao Dinheiro e, assim, quem para lá correu se tornou ainda mais miserável.

Somente algumas poucas pessoas viram no terceiro barquinho algo mais forte que a beleza do primeiro e a força do segundo.
Correram ao seu encontro e, que maravilha, encontraram a Humildade e se tornaram muito felizes. Foram todas honradas.

A maior virtude ensinada pelas Sagradas Escrituras é a humildade; ela sempre precede a honra.
O Senhor Jesus nos garantiu que aquele que se humilha a si mesmo herdará o Reino de Deus e será exaltado.

Israel esperou vários reis e ainda espera o Messias.
O Senhor Jesus, nosso Salvador, veio montado em um jumentinho.
Ele era o Rei que oferecia a outra face aos Seus inimigos, atendia aos pobres, comia com os pecadores e não lutou pela glória deste mundo.

 Os judeus esperavam um Rei que lutasse contra o domínio romano e lhes devolvesse a glória dos tempos de Davi.
Por isso não O aceitaram.

O Senhor Jesus é a Humildade; nós, cristãos, somos os barquinhos.
Se O levarmos às pessoas, os que sofrem serão abençoados.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

velho, a criança e o burro




No interior de Minas Gerais, terra de gente muito boa e trabalhadora, havia um pequenino sítio. Do que plantava naquela terra vivia uma humilde família, e também da criação de algumas galinhas e porcos, além de três cabeças de gado. Esquecida do mundo, aquela gente era feliz e vivia em paz, ainda que a vida não lhe fosse fácil.

Um fiel burrico fazia parte da pequena lista de propriedades daquela família. Era um animal valente e bem disposto, em cujo lombo havia sido carregada toda a terra removida para a construção do pequeno açude, que mantinha todos vivos na época das longas estiagens.

Com a chamada “febre da cidade grande”, quando a população campestre deixa a zona rural em busca de trabalho nos grandes centros urbanos, a família ficou reduzida a um menino, sua mãe e o avô. Os tios não apareciam havia tempo! O próprio pai da criança só às vezes mandava lembranças. Dinheiro, que é bom, nada.

Quando o menino cresceu mais um pouquinho, o avô amoroso resolveu levá-lo para ser educado na escola da cidade mais próxima, que distava um dia de viagem do sítio. Viagem a pé, diga-se de passagem, e pela estrada de chão, fique bem claro.
O velho aprontou o burrinho e, logo de manhã cedinho, partiram os três estrada afora, o velho, o menino e o burrico.

A criança ia montada no animal e o velho ia à frente, conduzindo a montaria.
Por volta das oito horas da manhã, os três pararam em frente a uma linda fazenda, com uma cerca de moirões de jacarandá, muito bem feita, que marcava os limites da propriedade.
Não longe da estrada podia-se ver a casa da sede, onde a fumacinha que saía da chaminé lembrava um café fresquinho, esquentado em cima do fogão de lenha.
Uma grande turma de trabalhadores, homens e mulheres, espalhava os grãos de café para secarem no espaçoso terreiro. Quando aquela gente toda viu o velho a pé e o menino em cima do burro, levantou-se um burburinho.
Todos comentavam: “Mas que falta de consideração com o pobre velho! Nessa idade e fazendo tanto esforço! Uma criança nova como essa pode muito bem andar por si só, sem precisar ir montada no lombo de um burro. O velho sim, precisa de montaria!”.
Um daqueles trabalhadores então gritou:
— Ô, menino! Respeite os mais velhos! Desça do burro e dê o lugar ao pobre velho!

Assim, o velho e o menino mudaram de posição: o velho montou no burro e a criança foi à frente, puxando o animal.
Por volta das dez horas, atravessaram uma pinguela, ponte estreita, feita com o tronco de uma árvore, e pararam junto a uma porteira, em frente a um grande curral, onde os boiadeiros cuidavam do gado.
Quando aqueles homens viram a criança abrir e fechar a porteira, enquanto o velho passava em cima do burro, comentaram: “Pobre criança! A coitadinha vai pela estrada a puxar o animal e a abrir as porteiras, como se fosse uma escrava daquele velho mau e preguiçoso!”
Um deles gritou:
— Ô velho! Tem vergonha não? Tenha pena dessa pobre criança!
Assim, o velho deu a mão ao menino e ele, ariscamente, pulou para cima do burro.

Lá se foram caminho fazerem a curva que contornava um morro todo plantado de milho, avistaram um arraial em
festa. Um grupo de pessoas celebrava em torno de um braseiro, onde um vistoso assado enchia o ar de sabor.
Ao verem o velho e o menino montados no burro, comentaram: “Mas que maldade com o bichinho! Dois montados em um pobre burrinho!” E gritaram:
— Vocês vão matar esse animal de cansaço!
Assim, o velho e o menino apearam e seguiram a pé pelo caminho, puxando o burrinho.

Mais outro tanto de caminhada e os três chegaram, finalmente, muito cansados à cidade.
Passando pela porta de um botequim, alguém maldosamente comentou de lá de dentro:
“Olhem só! Três burros: dois na frente puxando outro pela cordinha!”
Atravessando a cidade, atingindo enfim o portão da escola, mais alguém comentou: “O velho tá pagando promessa, sô? Se Deus lhe deu um burro, por que não monta nele? Será que não tem pena dessa criança?”

Quando se despedia do neto, o velho comentou:
— Meu filho, lembre da lição que Deus nos deu hoje.
Quando você montava o burro, os que trabalhavam no terreiro, espalhando os grãos, não lembraram de nos oferecer um café, mas souberam te criticar.
Os boiadeiros não se ofereceram para cuidar do nosso burrinho, dando-lhe água e um pouco de alimento, mas criticaram a mim.
Os festeiros não nos ofereceram um pouco do assado, ainda que fosse a hora do almoço, mas criticaram a nós dois.
Por fim, chegando à cidade, na porta da escola, antes de nos receberem e nos darem boas-vindas, vindo nós de tão cansativa viagem, criticaram a todos nós, incluindo nosso pobre burrico.

Prepara-te, meu filho, para a vida no mundo.
Conforme nos alertou o Senhor Jesus, há pessoas que sempre criticam, seja lá o que for.

Ele também sofreu com isso, pois certa vez também foi vítima desse hábito das pessoas. Ele mesmo nos advertiu quanto a isso:

“Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio! Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” Mateus 11:18-19
 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O beijo e o banquete



Conta-se que há muitos anos havia um rei bondoso e amado por todos os seus servos.
Reinava sobre uma das regiões montanhosas mais belas do mundo, atualmente conhecida como Pirineus, na fronteira da Espanha com a França.

Por ocasião do tempo da plantação, quatro jovens guerreiros se reuniram e decidiram que cada um deles procuraria um valioso presente, o qual pudesse ser oferecido ao rei na
grande festa anual da colheita, repetida naquele reino de geração em geração.

O mais velho, que era também o mais bonito, decidiu que partiria para Cashmere, país muito distante, mas famoso por sua seda, a fim de conseguir o mais lindo traje real.
Por seu belo porte, sabia que poderia facilmente ingressar no mundo artístico, o que lhe daria condições para comprar o valioso presente para o rei.

O segundo, que era o mais forte de todos, resolveu ir à Germânia, país famoso por suas armas, objetivando conseguir a mais extraordinária espada com a qual o rei pudesse se defender.
Por sua força descomunal, sabia que, exibindo sua força em shows ou apostando dinheiro em si mesmo em lutas, poderia pagar sua jornada e comprar o valioso presente real.

O terceiro, um inspirado poeta e exímio músico, decidiu que viajaria para a Áustria, à procura do mais perfeito instrumento de cordas, cujo som encantaria o rei e alegraria a festa da colheita.
Como era um grande artista, confiava que poderia ganhar bastante dinheiro, tocando e cantando para grandes audiências.

O quarto rapaz, que não tinha nenhuma das qualidades dos outros, nem outra qualquer que pudesse fazê-lo notório, sentiu-se desencorajado a partir em busca do tal presente.
Mas como amava muito o rei, fez uma oração a Deus, para que não lhe permitisse se apresentar no dia da festa com as mãos vazias.

Assim, os três talentosos jovens partiram e o quarto permaneceu no reino, a serviço do rei.
O tempo para a colheita era normalmente de três meses. Aconteceu, entretanto, que naquele ano as chuvas tão esperadas para abençoar a plantação não vieram, e uma terrível seca começou a ameaçar aquele próspero país.

O rei decidiu que a única maneira de salvar a plantação seria cavar um canal que trouxesse a água de um lago do alto da montanha, para regar toda a extensa área cultivada.
Seria um trabalho exaustivo e que precisaria ser iniciado imediatamente, e com todas as forças, antes que a falta da água destruísse completamente as sementes.

Os homens do reino, juntamente com suas carroças e animais, foram incansáveis naquele trabalho.
Destacava-se, porém, dentre eles o quarto rapaz, aquele que não havia viajado, que dia e noite cavava o chão e removia a terra, para a construção do canal.
O próprio rei montou uma barraca junto ao local da obra, onde pessoalmente providenciava que fossem servidas as refeições e respostas as ferramentas.

O tempo era seco e o calor sufocante.
Muitos adoeceram, devido ao rigor daquela tarefa.
Aquele jovem, contudo, multiplicava-se entre aqueles milhares de operários, prolongando seu serviço até a noite.

Enfim, após exaustivas jornadas, o povo daquele reino comemorou com grande alegria a chegada das águas no campo, trazendo fertilidade e uma abençoada safra.
Na tradicional festa que se seguiu à colheita, o rei, como de costume, reuniu toda a população ao redor do palácio.
Era a ocasião na qual recebia muitos presentes.

Aquele que trouxesse o presente que mais agradasse ao rei, recebia a honra e ter seu nome escrito no livro dos ministros do reino, e, assim, passava a fazer parte do conselho real, com direito a morar no palácio.
Muitos se apresentaram, até que chegaram os jovens que tinham viajado para reinos distantes, para escolherem seus presentes.

O primeiro, o mais bonito, chegou vestido com roupas tão lindas que provocou a admiração de todos. Trazia uma linda veste de seda vermelha para “Sua Majestade”.
O segundo, o mais forte, trouxe de presente uma linda espada, feita especialmente para o rei.
O terceiro rapaz se aproximou do trono entoando uma maravilhosa melodia, executada em um violino perfeito e absolutamente extraordinário, cujo som encantava a todos.
Era este o seu presente.

O rei os conhecia e estimava, e se lembrava também que sempre formaram um grupo de quatro, freqüentemente juntos. Perguntou, então, pelo quarto amigo.
O quarto jovem, que calado assistia a tudo, levantou-se e disse ao rei:
– Amado soberano, quando meus amigos partiram em busca de grandes presentes, fiquei triste.
Não sendo belo, nem forte, e nem habilidoso músico, senti-me desencorajado a partir.
Ainda que tenha feito uma oração a Deus, pedindo que me desse forças para não me apresentar neste momento de mãos vazias diante de ti, ó rei, a quem tanto amo, devo dizer que nada tenho que possa agradar Vossa Majestade.

O nobre rei, que pessoalmente havia observado todo o esforço daquele rapaz na escavação do canal, respondeu:
– Nosso bom Deus jamais deixa de responder a uma oração sincera, de um coração cheio de amor.
Aproxime-se do trono e me deixe ver de perto as suas mãos.
Então, segurando as mãos do rapaz, explicou:
– O Senhor ouviu a sua oração.
Você tem aqui nas suas mãos, feridas e calejadas, as marcas do serviço anônimo, desinteressado e fiel, motivado por um coração cheio de amor e imbuído do mais puro desejo de servir.
As vestes tão lindas que recebi na verdade me lembram a vaidade fútil dos que a usam, e com elas se exibem.
A espada me traz à mente a violência e a arrogância dos que confiam na sua própria força.
O violino traz a música tão apreciada para os momentos de festa, porém nada mais que isto, e, acabado o seu som, resta apenas o silêncio.
As suas mãos, porém, lembram-me o trabalho, o esforço e o amor ao próximo.

Os frutos que disso advêm permanecem para sempre.
Vejo nelas o mais lindo de todos os presentes.
Você, portanto, é o meu escolhido! Nomeio-lhe agora meu ministro e conselheiro –disse o monarca, diante de todos.

Quem quiser agradar ao Senhor deve considerar atentamente esta história.
Não há nada mais grandioso que um coração puro e humildade diante de Deus.

Quando o Senhor Jesus foi à casa de um fariseu, chamado Simão (Lucas 7.36-50), este Lhe preparou um grande jantar. Quando Ele estava à mesa, uma mulher não parava de
Lhe beijar os pés. O anfitrião censurou aquela mulher, pois era uma pecadora. O Senhor Jesus, porém, conhecendo o seu pensamento, disse-lhe: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés. Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.” Lucas 7.44-47

Veja, caro leitor, que o banquete nem sempre vale mais que o beijo.

A mulher foi abençoada, perdoada, recebeu a paz e, ainda hoje, no seu gesto de fé tem muito para nos ensinar.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

história de Zé Neco e do Chico Motorista





Já se vão mais de 30 anos que um fato triste sucedeu no agreste da Paraíba.
Uma senhora com quatro filhos, cujo marido fora tentar a vida em São Paulo, lutava sozinha, com todas as forças, para sustentar suas crianças.
Viúva de marido vivo, semelhante a tantas outras no
Nordeste brasileiro, aquela pobre mulher trabalhava para Zé Neco, comerciante “bem de vida”, como se costuma dizer de quem desfruta de uma ambicionada prosperidade, e filho do
prefeito da cidade.

Embora não fosse lá um bom emprego, era dali que aquela senhora, uma verdadeira lutadora, tirava todo o sustento para si e para seus filhos.
Um certo dia, por problemas de política local, a senhora foi despedida do emprego, sem a menor chance de apelação. Ficou desesperada.

Lembrou dos quatro filhos que dela dependiam; da conta da vendinha; dos uniformes das crianças para a escola; das despesas com os livros e cadernos, e pensava:
“Meu Deus do céu, como vai ser a nossa vida sem esse emprego?”
— Zé Neco, pelo amor de Deus! Você sabe das minhas crianças e que eu não tenho outro lugar para trabalhar! Você não pode me despedir! — implorava ela.
Zé Neco foi implacável. Sem pestanejar, disse:
— Aqui a senhora não fica mais e fim de papo!

“Vão-se os anéis e ficam os dedos”, é o que dizem os pobres quando a desventura lhes bate à porta.
A pobre senhora chorou durante todo o caminho de volta para sua casa.
Chorou pensando nas crianças, mas a vida continuou, e Deus é maior.
A duras penas, passando inúmeras necessidades, sem falar na fome que, vez por outra, batia à porta da humilde casa daquela família, os filhos cresceram e um deles seguiu o sonho do sertanejo: vencer na cidade grande e tirar a família do sertão.

Francisco, o filho caçula, arrumou seus poucos pertences em um saco, despediu-se da mãe e pôs os pés na estrada, com destino ao Rio de Janeiro.
Só Deus sabe o quanto sofreu!
Sem profissão, sem amigos ou parentes na cidade grande.
Chico era apenas mais um em meio a tantos solitários em busca do sucesso.

Desempregado, sem moradia e sem alimento, durante muito tempo perambulou pelas ruas da Cidade Maravilhosa, empurrado apenas pelo desejo de um dia ajudar a família que deixara para trás.

Deus é Pai e Chico foi para frente.
Finalmente conseguiu seu primeiro emprego.
A exemplo de tantos nordestinos sem uma especialização, foi trabalhar na construção civil.
O primeiro salário foi recebido como um verdadeiro milagre. Com ele, Chico pôde entrar em um botequim, chamado pelos cariocas de “pé sujo”, devido às poucas condições de higiene do local, e pagar seu primeiro almoço.

Depois, aprendendo aqui e ali, o rapaz foi tratorista, segurança e, finalmente, motorista de ônibus.
Juntou dinheiro, comprou uma casinha e voltou lá para o agreste, para buscar a mãe, que nunca mais teve notícias do marido, desde que este também partira para a cidade grande.

Deus ajudava e Chico ia prosperando.
A vida agora na cidade estava muito diferente da sua sofrida chegada.
Casado, com filhos e na companhia da mãe, tudo era muito, mas muito melhor, que a infância no sertão.

Foi um dia, quando Chico dirigia o ônibus 326, da Viação Ideal, itinerário Castelo- Bancários, na Ilha do Governador, que o trocador, aborrecido, gritou da traseira do veículo:
— Ô Francisco, vê se faz alguma coisa, que esse sujeito já está me tirando a paciência!
Chico, pelo retrovisor, viu que se tratava de um homem bêbado, desses bem chatos, querendo por todo jeito arrumar uma briga com o pobre do trocador, e não titubeou: acelerou o que podia e, em seguida, passou uma “segundona”, reduzindo a velocidade e fazendo o brigão vir “despinguelado” da roleta, até cair estatelado no capô.

Quem era o trapalhão? Para surpresa de Chico era o Zé Neco! O moço “bem de vida” lá do agreste, aquele que despedira sua pobre mãezinha, completamente fora de si, mais bêbado que um gambá.

No ponto final, Chico recolheu o ônibus à garagem e, na sua Variante, levou Zé Neco, desacordado, para sua casa.
Lá chegando, sua mãe quase não conseguia acreditar.
Era ele mesmo, o Zé Neco!
Já não o viam há muito tempo, mas ainda assim não havia dúvidas.

O pobre infeliz, todo sujo, fez suas necessidades físicas com roupa e tudo, e dormiu como se morto estivesse.
Muitas horas mais tarde, acordou e, para seu espanto, estava na casa da família à qual havia causado tantos infortúnios quando despediu a mãe, havia muitos anos, e que agora o tratava com tanto amor.

— Ô Zé Neco, lembra da gente? — perguntou a senhora, já abatida pela idade.
O homem estava muito embaraçado; na verdade envergonhado.
Afinal, o rapaz importante, o filho do prefeito, foi encontrado caído, em péssimo estado, e recolhido justamente pela
família em que tanto pisara.
Foi levantando, ajeitando a roupa e, com poucas palavras, se mandando.

— Zé Neco, toma um café antes de ir! — ofereceu a senhora.
Que nada! O homem já se ia porta afora, para sumir em poucos minutos.

Não é isso que sempre lemos na Palavra de Deus?
Que Ele abate os altivos e abençoa os humildes?
Francisco conheceu Jesus e hoje é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, o bispo Francisco de Assis, que já passou pela África e tem até CD gravado.

Durante muitos anos, nutriu o desejo de matar o próprio pai, quando o encontrasse, por tudo o que fizera a família sofrer, abandonando a todos no sertão.

Após seu encontro com o Senhor Jesus, teve realizado seu desejo de reencontrálo, só que para lhe dar um grande abraço, perdoando-o em seu leito de morte.
A dedicada senhora já partiu.
Está lá no Céu, com Jesus.
Zé Neco?
Bem, esperamos que tenha tomado juízo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O galo velho e o galo novo



Na fazenda do Arlindo não havia grandes plantações, mas no terreiro, atrás da casa, tinha uma vasta criação de galinhas, que dava gosto ver.
Os ovos eram uma beleza! Não como esses que se encontram nas granjas e aviários, mas aqueles de gema amarelinha, saborosíssimos.

O Arlindo tinha inúmeras galinhas, mas um só galo.
Era o velho Bastião, que reinava soberano no terreiro, já com muitos anos de bons serviços prestados.
Tudo corria em muita paz, até que chegou na fazenda um galo jovem, de bico grande, chamado Fincudo.
É claro que o clima não tardou a ferver.
Bastião e Fincudo não podiam nem se ver.
Ainda que as galinhas fossem muitas, cada um dos galos queria reinar com absoluta soberania, o que significava que um dos dois tinha de partir.

Em diálogo, nem pensar!
A coisa tinha de ser resolvida na força, numa “briga de galo”.
A briga foi ferrenha. Os dois se pegaram na porta do galinheiro e foram se bicando e pulando de um canto a outro do terreiro. As galinhas cacarejavam loucamente para todo lado.
A confusão era total, até que algum tempo depois, o velho Bastião, já cansado, deu-se por vencido.
Fincudo era só orgulho.
Deu uma olhada de ponta a ponta no terreiro e sua crista estava mais em pé do que nunca.
Um momento de conquista como esse tinha de ser comemorado em grande estilo.
Nada mais adequado do que cantar de galo, lá de cima do telhado.

Fincudo subiu em cima da cerca, pulou para o telhado da varanda, que era mais baixo e, não satisfeito, de lá voou para o alto do telhado principal da sede da fazenda.

O jovem galináceo estufou o peito e soltou: “Có-có-ró-có-có!!!!”
O som foi tão alto que chamou a atenção de um gavião que voava por perto.
A ave bateu forte suas asas e, num vôo rasante e fulminante, arrebatou Fincudo do telhado, levando-o em suas garras possantes.
E lá se foi o pobre galo, infeliz, para ser devorado, não se sabe onde, enquanto o velho Bastião reassumia suas funções novamente.

A fábula do galo Fincudo mostra, em sua simplicidade, uma lição de incalculável valor.

O que exalta a si mesmo será, com certeza, abatido.
Não escapará nem um sequer.

Este é o caminho mais rápido e mais antigo para a desgraça. Foi inaugurado há muitos anos pelo próprio Satanás, mas, infelizmente, esta velha e maldita estrada continua muito movimentada.
É estrada de mão única, que só desce!

domingo, 26 de agosto de 2012

bispo e seus dois filhos




Há muitos anos, conheci um bispo muito importante, que tinha dois filhos.
Ao mais jovem ele amava muito; o mais velho, este ele desprezava.
O bispo era um homem de muitos conhecimentos e vasta experiência.
Suas mensagens fortaleciam o coração, educavam a alma e despertavam a fé.

Não era à toa que sua congregação crescia mais que todas as outras.
Sua direção era segura e não havia nenhuma dúvida de que Deus era com ele.
Os dois filhos freqüentavam assiduamente os cultos na igreja, e ambos se fortaleciam no conhecimento da Palavra de Deus e no exemplo de seu pai.

Com o passar dos anos, o mais velho se tornou homem e manifestou o desejo de seguir as pegadas do pai, dedicando a vida à conquista das almas perdidas.
Seu pai, porém, que amava ao filho mais jovem e sonhava deixar-lhe a liderança de sua congregação, esquivava-se de atender ao desejo de seu filho mais velho, sempre lhe dizendo que deveria aguardar uma confirmação de Deus, e que ainda havia muito para aprender antes de tomar uma decisão tão importante.

O rapaz, muito sincero de coração, tendo a alma ardendo do desejo de pregar o Evangelho, sentindo-se rejeitado pelo pai, que tanto amava e admirava, viu-se obrigado a deixar aquela congregação e partir em busca dos perdidos, sem qualquer apoio de seu pai.

O bispo não ligou, pois tinha seu coração no filho mais jovem.
Este, um rapaz vistoso e muito inteligente, também cresceu e manifestou o desejo de seguir o caminho do pai.
O velho bispo via, assim, seu sonho se concretizar!
Ao filho mais jovem, que tanto amava, logo consagrou pastor e deu-lhe as mais importantes tarefas e a mais alta autoridade.

Logo o jovem pastor se tornou o líder da maior igreja da congregação, a catedral, e a ele todos os demais deveriam obedecer.

Ao mesmo tempo, o filho mais velho, sem poder contar com qualquer apoio de seu pai, encontrou as mais severas adversidades e dificuldades.
Sendo um verdadeiro homem de Deus, trabalhou incansavelmente, dia após dia, e o próprio Deus o honrou e fez surgir uma congregação muito maior que aquela de seu pai.

O bispo veio a falecer, porém não antes de ver o erro que havia cometido.
Seu filho mais jovem tinha recebido as melhores instruções, porém seu pai poupou-lhe as dificuldades, as provações e os rigores, os quais formam a temperança do caráter do homem
de Deus.
O jovem não teve forças para manter a congregação unida, e todo o grande trabalho de seu pai se dividiu e enfraqueceu.
Muitas vezes mais forte, o trabalho do filho mais velho, aquele que o pai desprezara, surgiu e cresceu, alcançando todo o mundo.

O velho bispo fez a escolha errada, porém Deus fez a escolha certa.
E o desprezo que deu ao filho mais velho acabou por ser, na verdade, o que Deus mais precisava para fazer dele um
verdadeiro bispo.

Ora, a herança de um homem de Deus não consiste em bens materiais e facilidades que possa arranjar para seus filhos dentro do ministério.
Se Jesus aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu, e ainda sendo Filho do grande Deus Altíssimo foi provado, perseguido, injustiçado e então vitorioso, quanto mais nós.

Cada um de nós deve, individualmente, matar seu leão e conquistar sua vitória através da própria fé em Deus.

sábado, 25 de agosto de 2012

Água limpa e água suja



Foi por amor e obediência à Palavra de Deus, que Olindo Gonçalves largou sua pátria e amigos para fazer a obra de Deus no continente africano.
Sua família - a esposa e os filhos - seguiu junto na aventura de conquistar as almas perdidas e levá-las aos pés do Senhor Jesus.

A vida em um país estranho, sem amigos e de outra cultura, traz sempre uma expectativa na alma, e só mesmo a fé em Deus pode dar forças nessas ocasiões.
Foi em um desses momentos, nos quais nos perguntamos “meu Deus, o que é que eu vou fazer?”, que o missionário se lembrou que não estava sozinho.
Ainda que não conhecesse ninguém naquela terra, poderia sempre contar com o apoio de um outro pastor, irmão na fé, soldado da mesma guerra, que certamente, alegrar-se-ia com sua chegada e com quem encontraria orientação para o início do seu ministério.

Começar é sempre difícil, especialmente quando se luta contra o diabo, numa terra que não é a nossa.
Há problemas com os papéis do governo, imigração, moradia, escola para as crianças, aluguéis e coisas do gênero.
Assim, ele procurou e achou.
Havia mesmo um conterrâneo radicado no país há muitos anos, pastor de outra igreja.
Era tudo de que Olindo precisava naquele momento.
“É uma bênção de Deus”, pensou ele.

Na primeira vez que se encontraram, após os cumprimentos, as notícias que o missionário recebeu do pastor não foram lá muito boas.
Aliás, foram as piores possíveis.
O homem estava extremamente pessimista.
Falava só de dificuldades, da impossibilidade de registrar junto ao governo um novo trabalho, da falta de união entre as igrejas e, para finalizar, falava até de uma possível guerra que estava prevendo para breve.

Finalmente, sugeriu: “Olindo, sem dúvida você veio no momento errado.
Volte para a sua terra e, quem sabe, daqui a uns dois anos você possa voltar.
Você tem mulher e filhos, e não vai querer arriscar a família numa guerra, não é?”
O missionário notou que havia algo estranho no modo de falar do pastor, mas, conversando com os outros radicados no país, ouviu o mesmo.

Ora, se o país está com tantas dificuldades, é lá mesmo que Deus precisa de homens de fé, para amarrarem os demônios e mudarem a situação.

Olindo não olhou para trás e continuou seu caminho.
Conhecia o poder de Deus, sabia do seu chamado e não olhava para as dificuldades.
O trabalho cresceu; os pastores, que antes não ajudaram, passaram a criticar, colocando defeitos em tudo que Olindo fazia.

Este episódio me faz lembrar do cavalo, que quando vai beber água, ao ver a própria imagem refletida no espelho das águas, pensa se tratar de um outro animal que vem para beber, e bate com as patas no chão, para espantá-lo, mas apenas levanta a terra do fundo e acaba por beber a água suja.

Jesus disse:
“A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara.” Mateus 9:37-38

Esta é a grande verdade.
A seara é imensa e os trabalhadores são poucos, porém há os que crêem e agem exatamente ao contrário: procuram com todas as forças impedir o crescimento de qualquer outro trabalhador, achando que se trata de um rival, à semelhança
do cavalo.

Assim fazem de uma água tão cristalina e pura, e tão boa de beber, uma água suja pelas suas próprias patadas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A resposta do motorista

 
 
 
Os professores e profissionais liberais que alcançam sucesso em suas profissões, costumam proferir palestras para audiências compostas, geralmente, de profissionais da mesma área.

É curioso constatar que a mesma palestra proferida para audiências distintas provocará, por parte dos ouvintes, perguntas muito semelhantes.
Assim foi que um economista brilhante percorria todo o país, proferindo sempre a mesma palestra sobre o tema “inflação”.

Tinha o homem um fiel motorista que, por coincidência, tinha
uma incrível semelhança física com ele.
Os dois sempre iam juntos para todos os lados.
Sem ter o que fazer durante aquelas duas horas de palestra, o motorista juntava-se aos ouvintes, sentando-se bem na primeira fila, a ouvir atentamente, como se também economista fosse.

Foram tantas as vezes que ouviu as mesmas palavras e perguntas por parte da audiência que, um dia, atreveu-se a afirmar ao professor que estava apto a proferir ele mesmo a
palestra!
O professor, já cansado de repetir o mesmo tema, pôs-se então a ouvir o motorista, e foi com surpresa que constatou que o homem sabia mesmo tudo.
Fez-lhe todas as perguntas de costume da audiência e o motorista, com a mesma fluência, respondeu a todas, sem pestanejar.
Convencido de que tinha arrumado um bom dublê, o professor passou então a usá-lo.
A partir de então, eles se revezavam.
Um dia, um dava a palestra e o outro sentava na primeira fila, como o motorista; no outro dia trocavam.

Os dois se divertiam com a situação e tudo ia muito bem, até que numa palestra ministrada pelo motorista, alguém se levantou e fez uma pergunta que ninguém jamais tinha feito antes.
O pobre motorista gelou.
A pergunta era direta, clara e inteligente, mas essa ele nunca tinha ouvido o professor responder.
Fez-se um silêncio profundo no auditório, enquanto todos aguardavam a resposta do emérito professor.

— Bem — começou o angustiado motorista — essa pergunta que o senhor me formula é, no seu conteúdo, tão simples de ser respondida que até o meu motorista, aqui sentado na primeira fila, tem condições de respondê-la!
Motorista, por favor, venha aqui ao microfone e dê ao senhor a resposta!

Há sempre o dia em que o oculto é revelado.
Ninguém pode sustentar uma farsa, por mais elaborada que tenha sido, diante dos olhos de Deus.

Não foi Jesus quem disse:
“Não há nada escondido que não venha a ser revelado”?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

segredo do homem de Deus

 

 
Caio era um jovem do interior e sonhava com o ministério na obra de Deus.
Enchiam-lhe a alma as palavras de Jesus, que nos enviou a pregar pelo mundo afora. Cada vez que as lia, seu coração ardia e se imaginava desbravando fronteiras, a levar a bandeira do Evangelho de Cristo.

Sendo, no entanto, jovem e estando em um mundo com tantas seduções, vivia atormentado pelos maus pensamentos e, profundamente decepcionado, por vezes se surpreendia sendo arrastado pela força dos instintos da carne.
Falava o que não devia; sentia o que não devia; pensava o que não devia, caindo em si quando já era tarde.
Atormentado pelo remorso, via seu sonho cada vez mais distante. “Como dominar a carne e vencer a si mesmo? Será isso possível?”, pensava Caio.

Foi nesse tempo que resolveu passar as férias na casa de seu tio, um verdadeiro homem de Deus, que pregava o Evangelho na grande cidade de São Paulo. Durante o caminho, o jovem foi carregando a questão que lhe afligia a alma: “Como dominar a mim mesmo?” Mal podia esperar a hora em que perguntaria isso ao tio.

Não tardou a chegar ao destino e, depois dos cumprimentos, pediu a atenção do tio para o assunto que o trazia.
— Meu tio — disse ele — venho de longe para buscar contigo o segredo que tens para viver a vida sem se deixar levar pela carne, já que há tantos anos prossegues em teu caminho, sem nunca alguém ter ouvido que tenhas caído.

O tio compreendeu e prometeu ajudar, porém estava na hora da reunião da noite, na igreja, e não podia demorar.
Convidou então Caio para acompanhá-lo.
Depois da reunião, incansavelmente, o pastor atendeu o povo, ouvindo com atenção e dando conselhos, sempre com base na Palavra de Deus.
Quando era já bem tarde, após todos terem saído, os dois rumaram para a emissora de rádio, onde o pastor fazia seu programa todas as noites.
Bem mais tarde, cansados, foram dormir.

Na manhã seguinte, quando Caio acordou, encontrou o pastor já pronto para ir à igreja.
Tomaram o café, sem demora, e lá se foram os dois juntos.
O dia na igreja, desde a manhã até a noite, era continuamente ocupado.
O pastor ora estava nas reuniões, ora aconselhando o povo; ora atendendo alguém por telefone, ora ensinando os obreiros; ora planejando o evangelismo nos arredores, ora organizando a visita ao hospital do bairro; escrevia ainda os testemunhos para o jornal e, então, já era hora do programa pelas ondas do rádio.

À noite, Caio, exausto, dormia profundamente.
Os dias voavam e o jovem cada vez mais se envolvia.
O ritmo do tio era contagiante e suas atitudes e conversas eram sempre cheias de fé e ânimo.

Ao meio-dia, sentavam-se à mesa para uma refeição simples, porém farta.
Em seguida, o pastor descansava por uma hora e, refeito, levantava-se para a jornada da tarde.
Sete dias na semana, quatro semanas no mês.
Não reclamava; era feliz demais para isso.
Sua esposa o seguia no mesmo passo; os dois, juntos,
completavam-se. Parecia que podiam ter uma conversa de mil palavras só com a troca de olhares ou um pequeno sorriso.
O ambiente era sempre agradável, ainda que muito ocupado.
Os dias passavam sem demora e as férias de Caio acabaram, sem que desse conta.

Ao se despedir do tio, este lhe perguntou se ainda queria saber o segredo do ministério.
Com surpresa, Caio notou que havia esquecido a pergunta, tanto quanto os maus pensamentos, sentimentos e fraquezas e, assim, encontrara a resposta:

uma boa esposa e a vida completamente sobre o altar era o simples, mas infalível, segredo do homem de Deus.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Onofre, o vendedor de relógios



Nos idos da minha infância, tive a felicidade de freqüentar com certa assiduidade o bairro de São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro, o qual se espalha ao redor da Quinta da Boa Vista, um dos mais aprazíveis locais da cidade e residência da família imperial no século XIX.

Vizinho ao Cais do Porto, São Cristóvão é o portão do Rio para o viajante cansado que, vindo de todas as partes do Brasil, por via terrestre, obrigatoriamente percorre a colossal Avenida Brasil.
Por sua característica adjacente ao nascedouro daquela avenida, São Cristóvão é, até hoje, uma mistura de bairro residencial e industrial, abrigando inúmeras empresas
transportadoras, cujos caminhões, carregados e cobertos com suas lonas típicas, colorem as ruas.

É curioso observarmos o cuidado com que se cobre um carregamento; todos os trançados e nós que os caminhoneiros bordam com suas cordas, até que, por fim, após várias horas, termina a carga perfeitamente coberta e protegida da chuva pela lona encerada, cuja cor, mais puxada para o cáqui (um amarelo misturado com o laranja, com traços de mostarda), traz a lembrança de um empadão daqueles de domingo, saindo do forno da casa da vovó.

Era justamente no querido bairro de São Cristóvão que Onofre, de quem falaremos, trabalhava.
Não era caminhoneiro, como é a maioria dos nordestinos ali estabelecidos; era, sim, vendedor de óculos de sol e relógios, com uma bancada armada em uma das calçadas mais movimentadas daquele bairro carioca.
Nosso amigo tinha sido caminhoneiro antes, mas infelizmente um acidente levou-lhe o antebraço esquerdo, até a altura do cotovelo, desfazendo para sempre o prazer que Onofre tinha em dirigir seu caminhão por esse mundão afora, desbravando cada canto desse imenso Brasil.

O braço direito nada sofrera; pelo contrário, era perfeito e muito forte, desenvolvido pelas longas jornadas e tantas cordas que havia puxado e prendido a carga do caminhão.
Habituado ao bairro que lhe havia abrigado, quando anos antes havia chegado do Nordeste, Onofre recebera a indenização da transportadora e ali mesmo resolveu se estabelecer no negócio de ambulante, chamado popularmente de “camelô”.

Não reclamava da vida, até porque, em um bairro de caminhoneiros, relógios e óculos de sol são um grande negócio.
Afinal, quem de nós nunca quebrou um par de óculos ou perdeu um relógio? Era natural, no entanto, que a distância da profissão que tanto amava deixasse um pouco de rancor e tristeza no coração do sujeito que, portanto, não era lá
de muitas brincadeiras.

Onofre, vendedor daqueles relógios de pulso modelo antigo – movidos a corda e longe de serem à prova d’água, como os de hoje.
– usava um muito vistoso, exatamente no braço em que era cotó, ou seja, o esquerdo.
Era impossível que alguém, ao se aproximar de sua barraca, deixasse de notar o fato.
Havia, porém, um segredo que fazia aquela barraquinha ser especial, e era o seguinte:
normalmente, quando clientes se aproximavam do ambulante, especialmente jovens e falantes rapazes, em grupos, sentiam-se como a fazerem um grande favor ao pobre comerciante, e revelavam uma desinibição e arrogância que jamais teriam, se estivessem em uma loja fina de artigos caros.

Reclamavam do modelo, queriam desconto, diziam que o produto não era bom... A tudo Onofre ouvia calado, mas havia uma coisa que ele não tolerava.
 
Quando algum gaiato, tomado pela conclusão rápida, dizia “companheiro, me diga lá, se Deus lhe deu um braço perfeito, por que é que usa o relógio justamente no que é defeituoso?”, era o momento esperado para espantar o importuno e a resposta vinha “de primeira”:
— Posso colocar no outro braço, mas na hora de tomar banho, acertar os ponteiros ou dar corda no relógio, vou chamar sua mãe para fazer isso por mim.

A resposta fulminava o envergonhado e humilhado freguês, que dava um sorriso amarelo, e todo o ar imponente que tinha vinha abaixo quando, após refletir, dizia: “Ah, é mesmo... Eu não tinha pensado...”

Acho que foi por isso que o Senhor Jesus nos ensinou, com tanto afinco, a virtude da humildade.
Porque se perdemos até mesmo nos menores confrontos da vida, fazemo-nos vítimas de nós mesmos e acabamos envergonhados.
Além do mais, com dois ouvidos, dois olhos e apenas uma boca, fomos feitos para observar e ouvir muito mais que falar.
 

Diz a sábia Palavra de Deus:
“Sabeis estas coisas, meus amados irmãos. Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” Tiago 1.19

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O rei Fogo




Uma lenda africana fala de Phuza Kakhulu, o grande rei Fogo, poderoso do Norte do Rio Congo.

Um dia, quando se deslocava em comitiva pela selva, perdeu-se dos demais e, após caminhar por muitas horas, encontrou uma humilde cabana em uma clareira, à beira de um rio.
Pelo caminho, havia rasgado todo o seu nobre traje, tendo apenas a aparência de um homem cansado.

Ao se aproximar, foi gentilmente saudado por um velho, que há muitos anos tentava a sorte a buscar ouro nas águas do pequeno riacho, o qual lhe ofereceu repouso e uma bebida deliciosa, de altíssimo teor alcoólico, fermentada por frutos silvestres.
O rei, testando a reação do seu hospedeiro, após beber o primeiro copo, disse:
— Bom homem, sou primeiro-oficial da guarda pessoal do grande rei Phuza, soberano de todas as tribos.
Quando ia em comitiva pela selva, desloquei-me à frente, para antecipar qualquer perigo.
Vi-me perdido e acabei por encontrar sua choupana.

O velho, sentindo-se honrado, respondeu:
— Feliz sou eu, pois julgava-me esquecido por Deus e pelos homens e, agora, o destino trouxe à minha morada tão distinto oficial.
O soberano, satisfeito, tomou outro copo e continuou:
— Conhecendo-lhe melhor o coração, sinto-me seguro para revelar que não sou apenas um oficial da guarda, mas o general comandante de todo o exército do império do grande rei de todas as tribos.

O velho, admiradíssimo, respondeu:
— Vejo que a honra a mim concedida por Deus é a maior que tive na vida, pois jamais pensei que pudesse ser de alguma utilidade a um servidor tão nobre do grande rei.
O rei tomou mais um copo cheio e, já com os olhos a brilhar e sem poder conter o riso, disse:
— Se te sentes feliz por receberes um general, saiba que realmente sou primeiro-ministro do reino e das terras conquistadas, encarregado de todas as riquezas do nosso imenso país.
Tenho sob meu controle pessoal as finanças do rei, que nada faz sem antes me consultar.

O pobre velho arregalou os olhos e exclamou:
— Já não me sinto digno de estar a servir Vossa Excelência com tão simples bebida, em uma tão simples palhoça.
Se a alguém eu disser que esteve comigo, em minha própria morada, a mão direita do grande rei de todas as tribos, receberei favores e a história que agora tenho a contar certamente interessará a todos que venham a ouvi-la.

“Sua Majestade” não pôde conter uma estrondosa gargalhada.
Após tomar outro copo cheio daquela poderosa bebida, já com os olhos vermelhos e a cabeça a bailar, estufou o peito e revelou:
— Bom e hospitaleiro homem, não sou um simples oficial, um general ou primeiro-ministro.
— Disse ele com a voz embargada pelo álcool
— mas o próprio rei Phuza Kakhulo, majestade de todas as tribos, o grande e terrível rei Fogo!

O homem tomou-lhe a garrafa, arrancou-lhe o copo da mão e respondeu:
— Pare lá, pobre homem! Já não podes beber, pois que no próximo copo me dirás que és o próprio Deus!

Agora sei quem realmente és: um fraco que, não conseguindo se dominar, deixa-se levar pela força da bebida.
Já não me agrada a tua companhia!
Então, sentindo-se ofendido pela suposta pilhéria que o bêbado lhe teria feito, arrastou o rei até uma pequena canoa às margens do rio e, colocando-o nela, deixou que as águas o levassem rio abaixo.

Assim é a situação do que se deixa levar pela bebida.
Não é trabalhador, advogado, estudante, médico, ministro ou presidente; é apenas um pobre infeliz, escravo do vício da bebida, sendo levado pelas águas da vida.

A Bíblia Sagrada ensina:
“Para quem são os ais? Para quem, os pesares? Para quem, as rixas? (...) Para quem, as feridas sem causa? E para quem, os olhos vermelhos? Para os que se demoram em beber vinho, para os que andam buscando bebida misturada. Não olhes para o vinho, quando se mostra vermelho, quando resplandece no copo e se escoa suavemente. Pois ao cabo morderá como a cobra e picará como o basilisco. Os teus olhos verão cousas esquisitas, e o teu coração falará perversidades. Serás como o que se deita no meio do mar (...) e dirás: Espancaram-me, e não me doeu; bateram-me, e não o senti; quando despertarei? Então, tornarei a beber.” Provérbios 23.29-35

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Moreira e os sapatos novos




Quem de nós não se lembra da sapataria onde costumávamos ir sempre que o velho par de sapatos deixava de ser um confortável amigo, para ser motivo de vergonha, pelas marcas do uso?

Ainda que uma sapataria não cative a fidelidade do cliente como uma barbearia, por exemplo, a do bairro sempre nos arrasta pela comodidade.

Normalmente, o vendedor daquelas antigas sapatarias masculinas era um sujeito atencioso, que não se incomodava de trazer caixas e mais caixas, procurando cercar o cliente de todas as opções disponíveis.
Ajudava a calçar e aguardava calado a decisão do
comprador.

Seu Moreira, um senhor dos seus 60 anos, representante de laboratório farmacêutico, morador do bairro e cliente antigo de uma dessas sapatarias, não dispensava a ajuda do vendedor, pois tinha certa dificuldade para se calçar, devido muito mais à barriga do que à idade.

Com a humildade de sempre, o vendedor se agachava e, com ajuda de uma calçadeira, empurrava aquele pé gordo para dentro do sapato escolhido. Puxava o cadarço e dava o nó, enquanto o Seu Moreira fazia cara de quem chupava um limão azedo.
Ele, no entanto, jamais reclamava; pelo contrário, fazia questão de levar sapatos menores que seu número.
Sabe-se lá o porquê, comprava sempre o mesmo modelo.
O vendedor, ainda que muito intrigado, não se julgava no direito de questionar a decisão do cliente.

O que fazia Seu Moreira comprar um sapato menor?
Sua profissão o obrigava a fazer longas caminhadas, a visitar inúmeros consultórios médicos, levando aquela pasta pesada, cheia de amostras.

Devia ser um insuportável desconforto cada vez que seus pés tocavam as ruas e calçadas abrasadoras dos dias quentes do Rio de Janeiro.
Como era possível alguém se infligir tão severa punição?

Um belo sábado, à tarde, Seu Moreira apareceu muito bem disposto na sapataria.
Nem parecia que tinha perdido a esposa havia poucos dias. Pela primeira vez, estava de fato alegre.

Escolheu um novo modelo de sapatos, muito mais bonito e bem mais caro que o usual e, quando o vendedor lhe trouxe o número de sempre, Seu Moreira sorriu e disse:
— Não, meu bom amigo; não uso mais este número.
Traga um maior, por favor.
O sapato lhe coube como uma luva.
Seu Moreira dava passos felizes e sorria.

Antes de sair da loja, revelou ao vendedor seu segredo:
— Amigo, sei que muitas vezes o intriguei quando comprava sapatos de número menor que o meu, e me obrigava a andar com aquelas dores nos pés.

É que sendo muito mal casado, tinha uma esposa que me infernizava a vida.
Quando, no trabalho, lembrava-me de que ao anoitecer teria de voltar para casa e suportá-la, consolava-me com o fato de que pelo menos em casa poderia tirar os sapatos, que tanto me atormentavam.
Agora, depois de muito sofrer, vejo-me livre de dois tormentos, e, por isso, sinto-me tão feliz!
Fiquei viúvo e, portanto, não preciso mais dos sapatos pequenos.

Como é preciosa a mulher discreta, cujas palavras são sábias, mas quão terrível é aquela que transforma a vida do marido em um verdadeiro infortúnio.

Amigo leitor, leio a Bíblia já por mais de 30 anos e o único versículo que encontrei repetido, exatamente da mesma maneira, em capítulos diferentes, fala sobre o assunto que estamos a tratar.
Peço a você, meu caro amigo, que reflita comigo.

Provérbios 21:9 e 25:24 dizem exatamente a mesma coisa:
 
"Melhor é morar no canto do eirado que junto com a mulher rixosa na mesma casa.”


domingo, 19 de agosto de 2012

A lei de Deus que Jesus quebrou




Conta-se que há muitos anos aconteceu um fato muito interessante no reino de Vertalona, ao Norte do Mar Adriático.

Naquela época, o reino era governado por um rei extremamente católico, que em tudo obedecia às
orientações do clero.
Nesse cenário, qualquer pessoa que se rebelasse contra as imposições da religião católica era sumariamente excomungada, julgada e condenada à morte, como praticante de bruxaria e feitiçaria.

A leitura da Bíblia Sagrada era permitida apenas à autoridade católica, e lida em Latim para o povo, na hora da missa.
É claro que as pessoas simples apenas ouviam a leitura do texto, mas nada compreendiam e também não ousavam perguntar.

A palavra do padre era incontestável, sendo apenas ele o único conhecedor da Palavra de Deus e Sua vontade.
Nem mesmo o rei ousava se levantar contra o poderio do clero, temendo que Deus viesse a castigá-lo.

No entanto, havia um homem que não temia os padres.
Era o taberneiro, que fornecia vinho ao mosteiro.
Por muitas vezes havia presenciado a confraria dos religiosos e a maneira como se comportavam longe do altar e do povo, e como se embriagavam.
Acostumado a levar e a buscar os tonéis de vinho, que supostamente seriam usados em cerimônias religiosas,
conhecia bem quem eram os sacerdotes e como agiam às escondidas.

Numa dessas idas ao convento, o taberneiro se apoderou de uma Bíblia, a qual passou a ler todos os dias com extraordinário interesse.
Conhecendo a verdade, ficou revoltado com a religião oficial.
Não tardou a ensinar a outros as maravilhosas promessas que Deus anunciava em Sua Palavra.

Tocado pelo que lia, deixou a taberna e passou a se dedicar ainda mais ao estudo e ensinamento da Bíblia Sagrada.
Outras pessoas, que ouviram seus ensinamentos, passaram igualmente a compartilhar com ele daquela experiência e um avivamento começou a tomar lugar no reino.

Num instante havia mais pessoas se reunindo na casa do ex-taberneiro do que aos pés dos sacerdotes na hora da missa.
Isso era aviltante, uma ofensa, pensaram os padres.

Levaram o assunto ao rei, que prometeu tomar severas providências e, sem demora, decretou que o pobre homem fosse levado à prisão, para ser julgado por seu “crime”.
Os que se congregavam com ele ficaram profundamente tristes e apelaram ao rei, sem, porém, obterem sucesso.

O julgamento foi marcado e o comentário geral era de que ele seria condenado à morte.
O dia do julgamento chegou.
Os sacerdotes, com suas batinas negras, sentados à frente
do trono do rei, ocupavam o palanque construído na praça central, para onde levaram o homem, a fim de ser julgado.

Assim que o trouxeram, o rei determinou que as acusações fossem lidas.
Os padres o acusavam de que, ensinando a Bíblia, o homem quebrara a lei sagrada de Deus e do papa, fazendo algo que nunca ninguém antes havia se atrevido a fazer, com a agravante de ter cometido tal pecado na presença de muitas testemunhas.

Antes de proferir sua sentença, o rei deu ao homem a chance de se defender.
— Vossa Majestade — começou o pregador — julgue a minha causa como melhor lhe aprouver.
Hoje sou acusado de quebrar a lei de Deus e, portanto, estou prestes a morrer.

Gostaria de usar em minha defesa o fato de que nosso Senhor Jesus Cristo, em Sua época, também quebrou uma lei de Deus, a qual nunca ninguém antes d’Ele havia se atrevido a fazer, e o fez na presença de muitas testemunhas, e ainda assim foi perdoado pelo Pai.

— Que lei de Deus Jesus quebrou em Sua época? —
perguntou o rei, com grande curiosidade.
— Pergunte ao clero. Vossa Majestade sabe que hoje sou acusado de ensinar o que não sei.
Ora, certamente algum dentre eles poderá confirmar minhas palavras e satisfazer a curiosidade do rei.
Se não souber, ficarei feliz em provar minha defesa e revelar ao rei essa verdade, em troca de minha liberdade
— disse o acusado.

Indagado a respeito, o clero negava tal hipótese.
Embora os padres não conhecessem a Bíblia como deviam, apostaram que seria impossível ao acusado provar sua defesa e, portanto, unanimemente concordaram em lhe garantir a liberdade se pudesse provar sua defesa.
— Ora, a Palavra de Deus diz
— começou o acusado
— que, tendo despedido Seus discípulos em um barco, Jesus permaneceu em terra, orando no monte.
Por volta da terceira hora da noite, veio Ele andando sobre o mar, para ter com Seus discípulos no barco.
Peço ao clero que confirme se as minhas palavras estão ou não escritas no texto da Palavra de Deus.

— Sim, estão! — confirmou o clero.
— Mas o que isso tem a ver com a defesa que queres provar? — perguntaram.
— Como se pode ver, o clero acusador confirma minhas palavras e me garante a liberdade.
Ao andar sobre as águas, o Senhor Jesus quebrou a lei de Deus chamada Lei da Gravidade, que rege todos os homens e os astros.
Fez o que ninguém antes havia feito e na presença de muitas testemunhas.
O rei e o clero foram apanhados na esperteza do pregador.

Como haviam prometido, diante de todo o povo, tiveram de soltá-lo.

A história é curiosa e a perseguição continua a mesma.
Para escapar dela, realmente precisamos da simplicidade da pomba e da sagacidade da serpente.

sábado, 18 de agosto de 2012

Bode dentro de casa?



Conta-se que há muitos anos, um homem vivia contrariado com a vida.
Resmungava o tempo inteiro e via defeito em tudo.
Na casa, na esposa, no trabalho, enfim, achava sempre
uma razão para reclamar.

Embora vivesse numa linda terra às margens do Mediterrâneo, ao Sul da Itália, conhecida até hoje como Régia Calábria, o pobre homem não via a verdadeira beleza da vida e não dava valor ao que Deus lhe havia concedido.

Quem mais sofria nessa história era sua esposa, pois
aturava, diariamente, o mau humor do marido, que se chamava Márcio e tinha poucos amigos.

Um dia, a esposa de Márcio ouviu falar a respeito de um certo apóstolo, chamado Paulo de Tarso, que pregava o Evangelho de Jesus, o Messias, Filho de Deus.
Ele falava fluentemente o italiano, realizava grandes milagres e estava de passagem, indo para Roma.

Ela convenceu o marido a procurar o apóstolo e a pedir-lhe o milagre que mudaria suas vidas.
Quando Paulo chegou à região, anunciou o Evangelho na praça e orou pelos enfermos.

Márcio então se aproximou e contou ao apóstolo toda a sua infelicidade.
A vida pobre que levava no sítio, o trabalho árduo, a rotina de cuidar dos animais, e especialmente a casa pequena na qual morava.
— Apóstolo, ouvimos dizer que Deus faz muitos milagres através de suas mãos.
Podes então fazer o milagre de mudar minha situação?
Quero uma casa melhor, um trabalho melhor, uma vida melhor — falou, ansiosamente.

Paulo, olhando para os olhos meigos da esposa do rapaz, entendeu toda situação e respondeu:
— Sim, eu posso fazer o milagre que tu queres.
Mas tens que prometer que farás tudo o que eu te disser.
Se falhares em uma só coisa, fico desobrigado de cumprir o que agora te prometo.

— Sim, sim, farei tudo o que me disseres
— respondeu de imediato.
— Muito bem.
Assim que chegares ao teu sítio, apanha um casal de gansos e põe para morar dentro da tua casa — disse Paulo.
O homem não entendeu a razão daquilo, mas, como havia prometido, assim fez.

A casa, que já era pequena, ficou menor.
O casal de gansos não parava de perturbar.
Ia do quarto para a sala e da sala para a cozinha.
Subia na mesa, na mobília e sujava o chão.
É impressionante como um casal de gansos provoca uma irritação insuportável em questão de minutos.
Alguns dias depois, como nada mudara em sua vida e não agüentando mais os gansos, ele saiu à procura do apóstolo.

A casa onde Paulo pregava estava cheia de doentes e o homem de Deus lutava contra os espíritos imundos.
Márcio, que só conseguia ver seus próprios problemas, o interrompeu para dizer:
— Apóstolo, fiz o que me disseste e nada mudou em minha vida!
Lembrando-se do caso, Paulo respondeu:
— Hoje, quando voltares para tua casa, põe tua vaca para morar contigo.
Faze isto antes que anoiteça.

O homem voltou desolado, mas, como queria seu milagre mais que tudo, ainda sem entender puxou a vaca para dentro da sala, fechou a porta, e antes de anoitecer lá estavam:
Márcio, sua esposa, os gansos e a vaca.

Que situação!
No dia seguinte, bem cedo, Márcio acordou com o mugido da vaca e o grasno estridente dos gansos.
A casa era uma balbúrdia!
A vaca era enorme.
Caíram os quadros da parede; os móveis ficaram empilhados num canto, sem falar do balaio de capim para a vaca e do balde de milho para os gansos.

Poucos dias se passaram e o homem, muito contrariado, procurou de novo o apóstolo.
— Lembra-te, Márcio
— disse Paulo
— de que prometeste fazer tudo que eu te dissesse.

Ao voltar, põe também teu bode para viver contigo, com os gansos e a vaca.
Era a última coisa que ele gostaria de ouvir.
Pensou mesmo em desistir e quebrar sua promessa, mas, convencido por sua esposa, ainda que contrariado, amarrou a corda no pescoço do bode e puxou o animal casa adentro.

A primeira coisa que o bode fez foi comer a cortina do quarto.
E a partir daí, foi fuçando tudo que via.
O aspecto da casa era terrível!
O cheiro insuportável!
A vida de Márcio, desde quando o Sol nascia e entrava pela janela, sem cortina, até o anoitecer, quando cobria o rosto
com o travesseiro, para escapar do cheiro do bode, era um tormento só.
O homem foi ficando esgotado.
Dormia mal, comia sentado no chão e nem se animava a tomar banho.

Sua esposa, coitada, ficou com a aparência de uma bruxa. Muito cansado e abatido por tantas noites mal dormidas, já sem forças, procurou o apóstolo.
— Muito bem, Márcio
— disse Paulo
— hoje tira os gansos e amanhã pela manhã tira a vaca e o bode.
Faze assim e receberás o milagre que esperas.
Dessa vez o homem chegou em casa aliviado.
— Mulher, mulher! Acabou nosso tormento!

Hoje tiramos os gansos e amanhã cedo saem a vaca e o bode!
Maravilha! Maravilha!
— gritava, numa alegria incontida.
Ao amanhecer, o casal tirou os últimos animais de dentro da casa e se pôs a reconstruir o lar.

Teceram novas cortinas, lavaram e enceraram o velho piso de madeira, pintaram as paredes e reformaram os móveis.
Márcio foi pelos campos ao redor e trouxe, para perfumar a
casa, lindas flores.
Tão lindas e perfumadas que era de impressionar o fato de que nunca as notara antes.
Até o telhado foi ajeitado.
Em poucos dias a casa ficou uma beleza.

Tornou-se a mais linda da região.
Márcio tinha, agora, o maior prazer de sentar na sala, fazer suas refeições à mesa e dormir sossegado no seu quarto confortável.
Elogiava a comida, a arrumação da casa e a beleza de sua esposa.

Assim, o milagre que Paulo prometeu se cumpriu e Márcio se tornou muito feliz.
Que milagre maravilhoso!
Quantas pessoas, hoje tão tristes, não resolveriam seus problemas simplesmente levando um bode para passar uma temporada com elas, dentro da mesma casa?

Mais tarde o sábio apóstolo escreveu:
“Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez.” Filipenses 4.12

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Quando se é feliz, um dia é como se fosse um ano!





A lenda hebraica, que passaremos a narrar, serve para mostrar o perigo da interpretação casual e conveniente da Bíblia Sagrada.

Há muitos e muitos anos, havia um riquíssimo judeu que possuía uma filha muito talentosa, porém não tão bela.
Como a jovem estava em idade de casar, o velho Jacob Trambik se martirizava com a idéia de ter que arcar com as despesas da festa, e ainda pagar o dote.
Este costume milenar, de pagar um dote em dinheiro ao genro, servia para ajudar o jovem casal a começar a vida.

O próprio Jacob, de origem muito pobre, começou a prosperar na vida quando, por ocasião de seu casamento, recebeu do sogro o necessário para se estabelecer como ourives.

Daquela ajuda inicial, e, claro, com seu esforço diário, construiu uma pequena fortuna, que não desejava repartir com ninguém.
Os jovens judeus daquela época, em idade de casar, eram procurados pelos agenciadores de casamentos, especialmente aqueles que eram de família rica, ou os agraciados com a beleza física.

Jacob tinha em mente para sua filha o jovem Mutret, um rapaz honesto e de boa linhagem, e que prestava bons serviços nos negócios do ourives.
Mas como poderia fugir de pagar o dote, sendo rico e tendo apenas uma filha?
Não encontraria desculpa diante da corte de rabinos.

Foi então que Jacob contratou um esperto agenciador e os dois prepararam a seguinte proposta, que foi levada ao jovem Mutret:

Pelo casamento com a jovem e talentosa Sara, Mutret receberia um dote insignificante, apenas suficiente para as despesas do casamento e as roupas nupciais, mas acrescido a isso receberia dez anos de kest.

Os dez anos de kest significavam que, por uma década, o jovem Mutret e sua esposa viveriam inteiramente às custas do sogro.
Era realmente uma proposta e tanto.

Não precisar suar o rosto ou franzir a testa; sem horário para dormir ou levantar; sem um chefe para dar ordens e sem obrigações a cumprir.
Levado pela sedução da boa vida, Mutret assinou o contrato nupcial, conforme a Lei de Moisés, e toda a tradição judaica e, num dia ensolarado, casou-se com Sara.

Após as núpcias, foram direto à mansão do velho Jacob, para os dez anos de kest.
O sogro se desfazia em gentilezas para agradar o genro. Mandava que os empregados o procurassem para saber, diligentemente, qual a comida que mais lhe agradava.
O sogro lhe trazia os jornais por ocasião do café da manhã, puxava os mais diversos assuntos pelo almoço e o convidava gentilmente para agradáveis caminhadas após a ceia da tarde.
À noite, antes de dormir, o sogro perguntava:
— Mutret, meu filho, és feliz em nossa casa?
Falta a ti alguma coisa, por menor que seja, para que tua felicidade seja completa?
Ao que o jovem, sorridente, respondia de pronto:
— Não, meu sogro, sou feliz como nunca fui e não me falta absolutamente nada!

Passaram-se assim dez dias e, no décimo primeiro, ao se dirigir à mesa do café, Mutret foi surpreendido com a face amarga do sogro, que foi logo lhe dizendo:
— Já não tens direito de estar nesta casa a partir de hoje. Cumpri contigo tudo o que foi combinado na presença das testemunhas.
Eu te prometi dez anos de kest e, como diz a nossa tradição sagrada, quando um homem é feliz, um dia vale por um ano.

Afinal, cada dia que estiveste em minha casa, tu me respondeste que eras feliz e nada te faltava.
Dez dias, portanto, valeram-te por dez anos.
Arruma tuas coisas, tens os trocados que te dei, és jovem,
tens força para o trabalho.
Quando voltar para almoçar, já não te quero ver aqui.
Se queres, ofereço-te o emprego que tinhas, mas não esperes receber mais do que te pagavas antes.

O rapaz se sentiu enganado e não sabia o que dizer.
Como sair daquela situação embaraçosa?
Aquela manhã foi a pior de sua vida.

Ele, que já havia se habituado com a idéia dos dez anos sem trabalhar, estava arrasado com a iminente volta ao velho emprego; o levantar cedo; o aluguel; as contas a pagar; enfim, uma realidade que ele havia apagado de sua mente.

Na hora do almoço, quando o sogro chegou em casa e viu o rapaz ainda com as malas por fazer, ficou indignado:
— Ainda permaneces em minha casa?
Não te lembras de nossa conversa pela manhã?
Já era para estares longe!
— disse o homem, enfurecido.

Calmamente, o rapaz respondeu:
— Meu sogro, ouvi com atenção tudo o que me disseste pela manhã, e não posso negar que a razão dirige tua decisão.

Fui feliz nesses dias, como nunca havia sido em toda a minha vida.
Conforme nossa tradição, quando um homem é inteiramente feliz, um dia é como um ano.

Quanto a isso, dou-me por pago e satisfeito; nada tenho a reclamar.
Porém, tenho também meus direitos e anuncio que hoje mesmo darei carta de divórcio à tua filha.

O velho não esperava jamais aquela decisão do rapaz.
Na cultura judaica, o divórcio lança sobre a mulher uma mancha de caráter irreparável.
É como uma maldição.
Para uma jovem recém-casada, nada, exceto a morte, poderia ser pior.

— Não podes fazer isso.
Que direito tens de divorciar-te de minha filha?
Foste casado de acordo com todas as leis dos homens e de Deus.
Tenho o santo Talmude, e tu o conheces, e sabes que não podes jamais dar a carta de divórcio a uma esposa sem justa razão!
— disse o sogro, perplexo e um tanto temeroso.

— Posso sim
— retrucou Mutret.
— A Lei de Moisés, o santo Talmude, que tu acabaste de citar, garante meu direito.

Moisés disse claramente que, quando um homem se casa com uma mulher, e esta não lhe dá filhos após dez anos, o tal marido tem direito de repudiá-la e dar-lhe a carta de divórcio.

Como disseste, estou casado com tua filha por dez anos, e como ela nunca me deu filhos, hoje mesmo redigirei a carta de divórcio e a apresentarei ao conselho de rabinos.

Jacob Trambik emudeceu.
Havia sido vítima de sua própria artimanha.
Sem chance, concedeu o kest a Mutret, que viveu tranqüilo por dez longos anos.

Caro leitor, esta história mostra o lado cômico da relação entre sogros e genros.
Mas mostra também como a Bíblia pode ser usada de maneira extremamente irresponsável, através de uma interpretação casual e conveniente.

Há muitas doutrinas novas, espalhadas por aí, que são como as de Mutret e Trambik.

Enganam os incautos para lhes extorquir tempo, dinheiro e, o pior de tudo, a salvação.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Os três trabalhadores





Conta-se que há muitos e muitos anos, na Costa do Mar Mediterrâneo, uma das regiões mais bonitas do planeta, de clima mais agradável, havia um reino feliz e muito bem governado por um nobre rei, cuja sabedoria e bondade excediam os mais eloqüentes elogios.

“Sua Majestade” era também um homem muito temente a Deus, e foi por isso que decidiu colocar todos os seus esforços para construir uma grande catedral, na parte mais nobre da capital do seu reino.

Não sendo aquele um país rico, o rei levou muitos anos para conseguir os recursos necessários à obra.
Sua alegria era imensa, pois tinha como sonho deixar erguido um grande templo.
Seu objetivo era possibilitar às pessoas de fé de seu reino um lugar onde pudessem se reunir na presença de Deus e, juntas, O glorificarem e buscarem as Suas bênçãos maravilhosas e infinitas.

O local que havia escolhido situava-se bem no centro da capital do reino.
Era de fácil acesso, e as torres do prédio, depois de erguidas, poderiam ser observadas de longas distâncias, já que o terreno era alto e não havia montanhas que obstruíssem a sua vista.

As previsões para a obra eram notáveis.
Os tijolos, a madeira, as pedras de granito e mármore, os vidros e toda a ferragem, as ferramentas e os projetos; enfim, tudo era o melhor que se podia obter naquela época.

E assim que passaram as chuvas pesadas de verão, o rei, cuidadoso, determinou que começassem as obras, e que tudo estivesse pronto e terminado no prazo de cinco anos.

Todos os desenhos foram elaborados por exímios arquitetos, que se esmeraram em cada um dos detalhes do edifício.
Era realmente uma obra grandiosa.

Entretanto, no que dizia respeito ao altar, o rei havia feito um desenho de próprio punho, uma concepção que Deus lhe havia inspirado e que era mesmo algo de extraordinária beleza.

A obra seguia seu rumo bem planejado.
A cada dia subiam as alvenarias, dando forma àquela catedral tão bonita.
Um dia, o rei resolveu visitar o local das obras e ver como andava o desenvolvimento do serviço.

Para que pudesse observar livremente e evitar qualquer constrangimento ou atraso que sua presença pudesse trazer aos trabalhadores, o rei se vestiu com roupas simples, colocou
um chapéu que lhe fazia sombra ao rosto e, sem alarde, partiu bem cedo em direção à construção.

O som das ferramentas e o movimento dos operários eram notados à distância.
Depois de rodear o local e observar cuidadosamente todas as tarefas que eram executadas no momento, “Sua Majestade” se aproximou de um dos pedreiros e lhe perguntou, sem rodeios:
— O que você está fazendo?
Respondeu-lhe o homem:
— Estou trabalhando para levantar esta parede e assim ganhar o dinheiro de que preciso para viver.
Sou pobre, tenho muitos filhos, e esta é a maneira que tenho para ganhar a vida.

O rei, disfarçado, despediu-se e se dirigiu para outra parte da obra, onde encontrou um carpinteiro, que se ocupava em pregar madeiras.
O rei fez a mesma pergunta que havia feito ao pedreiro, ao que o homem respondeu:
— Estou preparando uma porta, já que na vida eu não tive a sorte de ter pais ricos, que pudessem custear meus estudos para que fosse um doutor.
Para a minha tristeza, levo a vida no trabalho pesado, porque não tenho condições de arrumar um emprego melhor — respondeu o carpinteiro.

Mais à frente, o rei se deteve diante de um senhor que, embora tendo uma certa idade, e diga-se de passagem já meio avançada, empenhava-se arduamente em sua tarefa.
Parecia incansável e trabalhava com imenso prazer.

O rei, admirado, aproximou-se e lhe fez a mesma pergunta que havia feito aos outros dois operários.
— Estou construindo a Casa de Deus 
— respondeu de pronto aquele trabalhador.
— Muito bem, meu caro senhor.
Agora encontrei alguém em quem posso confiar.

Seu trabalho vem do coração; é motivado pelo amor e tenho certeza de que, trabalhando assim, Deus há de abençoar suas mãos, para que tudo o que fizer fique certo e bem ajustado.

Hoje, eu o escolho para ser o encarregado da parte mais importante desta catedral: a construção do altar que Deus me inspirou a fazer — exclamou o rei.

Esta história antiga mostra bem a diferença que há entre os corações dos homens.
A pobreza do primeiro operário era muito mais que a falta de dinheiro.
Sua pobreza de alma não permitia ver que a parede que construía era da Casa de Deus, e que, portanto, era um privilégio nela trabalhar.
Só isso já o fazia um homem rico e abençoado.

A tristeza do segundo operário era muito mais do que o trabalho pesado.
A sua tristeza de espírito o impedia de se alegrar com o fato de que suas mãos serviam para construir a Casa de Deus, o que por si só é o mais honroso dos trabalhos.

Assim, muitas vezes perdemos grandes oportunidades de alcançar as bênçãos de Deus.

Ele, através de nossas atitudes no dia-a-dia, prova o nosso coração e nos escolhe ou rejeita para fazermos Sua obra neste mundo.