domingo, 19 de agosto de 2012

A lei de Deus que Jesus quebrou




Conta-se que há muitos anos aconteceu um fato muito interessante no reino de Vertalona, ao Norte do Mar Adriático.

Naquela época, o reino era governado por um rei extremamente católico, que em tudo obedecia às
orientações do clero.
Nesse cenário, qualquer pessoa que se rebelasse contra as imposições da religião católica era sumariamente excomungada, julgada e condenada à morte, como praticante de bruxaria e feitiçaria.

A leitura da Bíblia Sagrada era permitida apenas à autoridade católica, e lida em Latim para o povo, na hora da missa.
É claro que as pessoas simples apenas ouviam a leitura do texto, mas nada compreendiam e também não ousavam perguntar.

A palavra do padre era incontestável, sendo apenas ele o único conhecedor da Palavra de Deus e Sua vontade.
Nem mesmo o rei ousava se levantar contra o poderio do clero, temendo que Deus viesse a castigá-lo.

No entanto, havia um homem que não temia os padres.
Era o taberneiro, que fornecia vinho ao mosteiro.
Por muitas vezes havia presenciado a confraria dos religiosos e a maneira como se comportavam longe do altar e do povo, e como se embriagavam.
Acostumado a levar e a buscar os tonéis de vinho, que supostamente seriam usados em cerimônias religiosas,
conhecia bem quem eram os sacerdotes e como agiam às escondidas.

Numa dessas idas ao convento, o taberneiro se apoderou de uma Bíblia, a qual passou a ler todos os dias com extraordinário interesse.
Conhecendo a verdade, ficou revoltado com a religião oficial.
Não tardou a ensinar a outros as maravilhosas promessas que Deus anunciava em Sua Palavra.

Tocado pelo que lia, deixou a taberna e passou a se dedicar ainda mais ao estudo e ensinamento da Bíblia Sagrada.
Outras pessoas, que ouviram seus ensinamentos, passaram igualmente a compartilhar com ele daquela experiência e um avivamento começou a tomar lugar no reino.

Num instante havia mais pessoas se reunindo na casa do ex-taberneiro do que aos pés dos sacerdotes na hora da missa.
Isso era aviltante, uma ofensa, pensaram os padres.

Levaram o assunto ao rei, que prometeu tomar severas providências e, sem demora, decretou que o pobre homem fosse levado à prisão, para ser julgado por seu “crime”.
Os que se congregavam com ele ficaram profundamente tristes e apelaram ao rei, sem, porém, obterem sucesso.

O julgamento foi marcado e o comentário geral era de que ele seria condenado à morte.
O dia do julgamento chegou.
Os sacerdotes, com suas batinas negras, sentados à frente
do trono do rei, ocupavam o palanque construído na praça central, para onde levaram o homem, a fim de ser julgado.

Assim que o trouxeram, o rei determinou que as acusações fossem lidas.
Os padres o acusavam de que, ensinando a Bíblia, o homem quebrara a lei sagrada de Deus e do papa, fazendo algo que nunca ninguém antes havia se atrevido a fazer, com a agravante de ter cometido tal pecado na presença de muitas testemunhas.

Antes de proferir sua sentença, o rei deu ao homem a chance de se defender.
— Vossa Majestade — começou o pregador — julgue a minha causa como melhor lhe aprouver.
Hoje sou acusado de quebrar a lei de Deus e, portanto, estou prestes a morrer.

Gostaria de usar em minha defesa o fato de que nosso Senhor Jesus Cristo, em Sua época, também quebrou uma lei de Deus, a qual nunca ninguém antes d’Ele havia se atrevido a fazer, e o fez na presença de muitas testemunhas, e ainda assim foi perdoado pelo Pai.

— Que lei de Deus Jesus quebrou em Sua época? —
perguntou o rei, com grande curiosidade.
— Pergunte ao clero. Vossa Majestade sabe que hoje sou acusado de ensinar o que não sei.
Ora, certamente algum dentre eles poderá confirmar minhas palavras e satisfazer a curiosidade do rei.
Se não souber, ficarei feliz em provar minha defesa e revelar ao rei essa verdade, em troca de minha liberdade
— disse o acusado.

Indagado a respeito, o clero negava tal hipótese.
Embora os padres não conhecessem a Bíblia como deviam, apostaram que seria impossível ao acusado provar sua defesa e, portanto, unanimemente concordaram em lhe garantir a liberdade se pudesse provar sua defesa.
— Ora, a Palavra de Deus diz
— começou o acusado
— que, tendo despedido Seus discípulos em um barco, Jesus permaneceu em terra, orando no monte.
Por volta da terceira hora da noite, veio Ele andando sobre o mar, para ter com Seus discípulos no barco.
Peço ao clero que confirme se as minhas palavras estão ou não escritas no texto da Palavra de Deus.

— Sim, estão! — confirmou o clero.
— Mas o que isso tem a ver com a defesa que queres provar? — perguntaram.
— Como se pode ver, o clero acusador confirma minhas palavras e me garante a liberdade.
Ao andar sobre as águas, o Senhor Jesus quebrou a lei de Deus chamada Lei da Gravidade, que rege todos os homens e os astros.
Fez o que ninguém antes havia feito e na presença de muitas testemunhas.
O rei e o clero foram apanhados na esperteza do pregador.

Como haviam prometido, diante de todo o povo, tiveram de soltá-lo.

A história é curiosa e a perseguição continua a mesma.
Para escapar dela, realmente precisamos da simplicidade da pomba e da sagacidade da serpente.

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