quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O beijo e o banquete



Conta-se que há muitos anos havia um rei bondoso e amado por todos os seus servos.
Reinava sobre uma das regiões montanhosas mais belas do mundo, atualmente conhecida como Pirineus, na fronteira da Espanha com a França.

Por ocasião do tempo da plantação, quatro jovens guerreiros se reuniram e decidiram que cada um deles procuraria um valioso presente, o qual pudesse ser oferecido ao rei na
grande festa anual da colheita, repetida naquele reino de geração em geração.

O mais velho, que era também o mais bonito, decidiu que partiria para Cashmere, país muito distante, mas famoso por sua seda, a fim de conseguir o mais lindo traje real.
Por seu belo porte, sabia que poderia facilmente ingressar no mundo artístico, o que lhe daria condições para comprar o valioso presente para o rei.

O segundo, que era o mais forte de todos, resolveu ir à Germânia, país famoso por suas armas, objetivando conseguir a mais extraordinária espada com a qual o rei pudesse se defender.
Por sua força descomunal, sabia que, exibindo sua força em shows ou apostando dinheiro em si mesmo em lutas, poderia pagar sua jornada e comprar o valioso presente real.

O terceiro, um inspirado poeta e exímio músico, decidiu que viajaria para a Áustria, à procura do mais perfeito instrumento de cordas, cujo som encantaria o rei e alegraria a festa da colheita.
Como era um grande artista, confiava que poderia ganhar bastante dinheiro, tocando e cantando para grandes audiências.

O quarto rapaz, que não tinha nenhuma das qualidades dos outros, nem outra qualquer que pudesse fazê-lo notório, sentiu-se desencorajado a partir em busca do tal presente.
Mas como amava muito o rei, fez uma oração a Deus, para que não lhe permitisse se apresentar no dia da festa com as mãos vazias.

Assim, os três talentosos jovens partiram e o quarto permaneceu no reino, a serviço do rei.
O tempo para a colheita era normalmente de três meses. Aconteceu, entretanto, que naquele ano as chuvas tão esperadas para abençoar a plantação não vieram, e uma terrível seca começou a ameaçar aquele próspero país.

O rei decidiu que a única maneira de salvar a plantação seria cavar um canal que trouxesse a água de um lago do alto da montanha, para regar toda a extensa área cultivada.
Seria um trabalho exaustivo e que precisaria ser iniciado imediatamente, e com todas as forças, antes que a falta da água destruísse completamente as sementes.

Os homens do reino, juntamente com suas carroças e animais, foram incansáveis naquele trabalho.
Destacava-se, porém, dentre eles o quarto rapaz, aquele que não havia viajado, que dia e noite cavava o chão e removia a terra, para a construção do canal.
O próprio rei montou uma barraca junto ao local da obra, onde pessoalmente providenciava que fossem servidas as refeições e respostas as ferramentas.

O tempo era seco e o calor sufocante.
Muitos adoeceram, devido ao rigor daquela tarefa.
Aquele jovem, contudo, multiplicava-se entre aqueles milhares de operários, prolongando seu serviço até a noite.

Enfim, após exaustivas jornadas, o povo daquele reino comemorou com grande alegria a chegada das águas no campo, trazendo fertilidade e uma abençoada safra.
Na tradicional festa que se seguiu à colheita, o rei, como de costume, reuniu toda a população ao redor do palácio.
Era a ocasião na qual recebia muitos presentes.

Aquele que trouxesse o presente que mais agradasse ao rei, recebia a honra e ter seu nome escrito no livro dos ministros do reino, e, assim, passava a fazer parte do conselho real, com direito a morar no palácio.
Muitos se apresentaram, até que chegaram os jovens que tinham viajado para reinos distantes, para escolherem seus presentes.

O primeiro, o mais bonito, chegou vestido com roupas tão lindas que provocou a admiração de todos. Trazia uma linda veste de seda vermelha para “Sua Majestade”.
O segundo, o mais forte, trouxe de presente uma linda espada, feita especialmente para o rei.
O terceiro rapaz se aproximou do trono entoando uma maravilhosa melodia, executada em um violino perfeito e absolutamente extraordinário, cujo som encantava a todos.
Era este o seu presente.

O rei os conhecia e estimava, e se lembrava também que sempre formaram um grupo de quatro, freqüentemente juntos. Perguntou, então, pelo quarto amigo.
O quarto jovem, que calado assistia a tudo, levantou-se e disse ao rei:
– Amado soberano, quando meus amigos partiram em busca de grandes presentes, fiquei triste.
Não sendo belo, nem forte, e nem habilidoso músico, senti-me desencorajado a partir.
Ainda que tenha feito uma oração a Deus, pedindo que me desse forças para não me apresentar neste momento de mãos vazias diante de ti, ó rei, a quem tanto amo, devo dizer que nada tenho que possa agradar Vossa Majestade.

O nobre rei, que pessoalmente havia observado todo o esforço daquele rapaz na escavação do canal, respondeu:
– Nosso bom Deus jamais deixa de responder a uma oração sincera, de um coração cheio de amor.
Aproxime-se do trono e me deixe ver de perto as suas mãos.
Então, segurando as mãos do rapaz, explicou:
– O Senhor ouviu a sua oração.
Você tem aqui nas suas mãos, feridas e calejadas, as marcas do serviço anônimo, desinteressado e fiel, motivado por um coração cheio de amor e imbuído do mais puro desejo de servir.
As vestes tão lindas que recebi na verdade me lembram a vaidade fútil dos que a usam, e com elas se exibem.
A espada me traz à mente a violência e a arrogância dos que confiam na sua própria força.
O violino traz a música tão apreciada para os momentos de festa, porém nada mais que isto, e, acabado o seu som, resta apenas o silêncio.
As suas mãos, porém, lembram-me o trabalho, o esforço e o amor ao próximo.

Os frutos que disso advêm permanecem para sempre.
Vejo nelas o mais lindo de todos os presentes.
Você, portanto, é o meu escolhido! Nomeio-lhe agora meu ministro e conselheiro –disse o monarca, diante de todos.

Quem quiser agradar ao Senhor deve considerar atentamente esta história.
Não há nada mais grandioso que um coração puro e humildade diante de Deus.

Quando o Senhor Jesus foi à casa de um fariseu, chamado Simão (Lucas 7.36-50), este Lhe preparou um grande jantar. Quando Ele estava à mesa, uma mulher não parava de
Lhe beijar os pés. O anfitrião censurou aquela mulher, pois era uma pecadora. O Senhor Jesus, porém, conhecendo o seu pensamento, disse-lhe: “Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés. Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.” Lucas 7.44-47

Veja, caro leitor, que o banquete nem sempre vale mais que o beijo.

A mulher foi abençoada, perdoada, recebeu a paz e, ainda hoje, no seu gesto de fé tem muito para nos ensinar.

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